Mixórdia

Por que você ainda me dói?

 

Foto: Douglas Theodoro

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Crônicas do centro VI

- Faz carinho?

- Mas eu já não tô aqui?

 

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Métro de Paris

 

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Sina

No Castelo de São Jorge, eu sentei e chorei ao som da minha tatuagem.

Villa, mestre, sempre.

 

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Ao Dia da Poesia

Procura da Poesia

Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.

Carlos Drummond de Andrade

 

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Bastidores do Pinheirinho

No dia da reintegração de posse do Pinheirinho, eu estava de folga. Acordei e, viciada como sou, fui ver o Twitter. Me deparei com informações confusas e preocupantes sobre a operação da PM.

Liguei para minha editora e perguntei se não teria como me mandar para lá. Situações importantes como aquela demandam mais de um repórter para uma cobertura ampla. E era domingo, esquema de plantão. Sabia que toda ajuda seria válida. “Você tem certeza que quer ir?”, perguntou a editora. “Absoluta”.

Cheguei em São José dos Campos por volta das 14h. E o que aconteceu naquele domingo todo mundo já sabe. Voltei para casa quase 5h (aqui entrariam reclamações do tipo “nossa, o jornal te explorou”, mas me mandaram embora e eu quis ficar).

Desde então, me debrucei sobre os processos de falência e reintegração de posse. Fazendo jornada dupla, tripla, para dar conta de tudo porque eu não podia deixar de lado os assuntos factuais da editoria. Mesmo assim, acabei desfalcando as editorias de Cotidiano e Ilustrada da Folha. Com por alguns dias, o que eu sei que prejudicou a equipe. Fica registrado publicamente meu agradecimento aos editores e repórteres da Folha.Com que acreditaram em mim e se ferraram trabalhando mais para cobrir meus desfalques.

Eu não devo explicações sobre bastidores e decisões dos caminhos escolhidos para a matéria de hoje com o Naji Nahas. Mas como meu apego a essa história é grande e eu recebi muita ajuda importante (e pauladas também) vinda pela internet, me sinto na obrigação de dar alguns esclarecimentos.

A demora na publicação

O processo da falência da Selecta tem 7 mil páginas, o da reintegração tem mais de 1 mil. E eu não sou advogada. A ação da falência é extremamente complicada. E quando eu fiz a ligação de uma empresa da falência com a operação da Satiagraha, tudo ficou pior. Entrei em contato com um advogado e tentei falar com o proprietário dessa empresa. Logo depois dessas ligações, o Nahas me procurou.

Uma pessoa cercada de mistérios, que não fala há anos com a imprensa, estava disposta a conversar pessoalmente comigo sobre o assunto. Nesse momento, a história cresceu e ficou mais pesada do que já estava. Chamei a Laura Capriglione, excelente repórter especial, para me ajudar. E com ela veio com as belas imagens da Marlene Bergamo. Sou praticamente uma foca na Folha, era hora de ter acompanhamento de gente grande.

Além do mais, ouvir da boca dele que ele é o único beneficiado com a reintegração tem um peso muito grande.

A única investigação sobre os negócios do Nahas teve início na Satiagraha, que todos sabem, foi anulada (tem dois recursos contra essa decisão em andamento).  Não há provas de que Nahas tenha cometido algum crime. Seria preciso uma investigação dos sócios estrangeiros dele e do ciclo do dinheiro de seus investimentos. E isso nunca foi feito.

Ouvi de uma autoridade ligada a um dos assuntos que investiguei, que procurei para pedir informação, a seguinte frase: “Boa sorte para você conseguir o que a polícia e o Ministério Público não conseguiram”.

Ironia é a melhor resposta para cinismo. Em momento algum houve defesa de alguém ou de alguma situação na matéria de hoje na Ilustríssima. Ainda há outra matéria com outras informações que serão publicadas durante a semana. Não coube tudo em um texto só e ficaria muito confuso. O assunto é complicado.

Fiz o que pude, até o limite da minha exaustão. Mas não sou policial nem promotora. E não cabe ao jornalista fazer julgamentos no texto, principalmente quando não há provas. Cabe ao leitor tirar suas conclusões, que me parecem bem óbvias mesmo para quem não acompanhou o assunto de perto.

Leia mais sobre o assunto: Mais humanidade, menos política.

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Ao Dia das Mulheres

“Diz Nietzsche: ‘A mulher nada mais é um espelho’, e eu nada mais fiz do que refletir, reagir diante das pessoas e das forças, e como as heroínas das metamorfoses de Ovídio, apenas mudei de forma, de caráter de acordo com a vontade dos deuses imortais.”

Isadora Duncan, a bailarina que trocou o tutu por uma túnica, a sapatilha pelos pés descalços, o coque pelo cabelo solto, os Estados Unidos pela União Soviética e o palco pela revolução.

“Na minha túnica vermelha sempre dancei a revolução. Sentia que meus sapatos e roupas apenas me atrapalhavam., por isso eu tirava tudo. O corpo da mulher foi, durante séculos, símbolo da mais alta beleza. A mulher tem que viver essa beleza e seu corpo tem de se tornar o expoente vivo disso. Meu corpo é o tempo da minha arte.”

 

 

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